No âmbito do Dia da Criança, o Lifestyle ao Minuto falou com os especialistas André Mariz de Almeida e Filipa Maria Roque sobre bruxismo e ranger de dentes em crianças, os cuidados a ter e quando esta deverá ser uma preocupação para os pais.
Afinal, porque é que as crianças rangem os dentes? E quando é que os pais devem ficar preocupados com este comportamento?
A propósito do Dia da Criança, o Lifestyle ao Minuto esteve à conversa com dois especialistas em saúde oral:
- André Mariz de Almeida, coordenador da área de Dor Orofacial e Sono na MALO CLINIC Lisboa e Presidente da SPDOF (Sociedade Portuguesa de Disfunção Temporomandibular, Dor Orofacial e Sono);
- Filipa Maria Roque, médica dentista na MALO CLINIC Lisboa, coordenadora do Departamento de Odontopediatria.
Ambos abordaram o assunto, explicando a origem do comportamento e de que forma se deverá agir em situações de bruxismo.
Estudos sugerem que cerca de 20% a 40% das crianças podem apresentar bruxismo em algum momento do crescimentoPorque é que as crianças rangem os dentes? Quais os motivos mais comuns?
André Mariz de Almeida [AMA]: Ranger ou apertar os dentes é relativamente frequente na infância. Estudos sugerem que cerca de 20% a 40% das crianças podem apresentar bruxismo em algum momento do crescimento.
É também importante perceber que o bruxismo pode acontecer em momentos diferentes do dia. Pode ocorrer durante o sono, quando os pais frequentemente ouvem a criança ranger os dentes, ou durante a vigília, quando a criança está acordada e pode apertar os dentes, manter a mandíbula contraída, morder objetos, as unhas, a língua ou as bochechas, muitas vezes sem se aperceber.
Atualmente, sabemos que não existe uma causa única. O bruxismo do sono parece estar mais associado a fatores relacionados com o sono, alterações respiratórias noturnas, refluxo ou mecanismos biológicos próprios do desenvolvimento. Já o bruxismo de vigília tende a estar mais relacionado com fatores emocionais e comportamentais, como stress, ansiedade, maior exigência escolar, pressão social ou dificuldades emocionais.
Também sabemos que algumas crianças com maior impulsividade, hiperatividade ou dificuldades de atenção podem apresentar este comportamento com maior frequência.
As novas tecnologias também têm um papel aqui?
AMA: O uso excessivo de ecrãs, sobretudo próximo da hora de dormir, pode atrasar o início do sono, aumentar a estimulação cerebral e reduzir a qualidade do descanso. Por isso, é recomendável que os pais estabeleçam horários consistentes e limitem a utilização de telemóveis, tablets ou videojogos nas 1 a 2 horas antes de dormir.
Gosto muitas vezes de explicar aos pais que o bruxismo se comporta um pouco como a febre: pode surgir em diferentes fases da vida, aumentar ou diminuir de intensidade e, por si só, não significa necessariamente doença, ou seja a febre pode aparecer e ser apenas vigiada e desparecer imediatamente ou ter de ser gerida de outra forma. O importante não é apenas perceber que existe, mas compreender porque aparece e se está a ter impacto na saúde e bem-estar da criança.
Quando é que os pais deverão ficar preocupados?
Filipa Maria Roque [FMR]: Na maioria dos casos, ouvir uma criança ranger os dentes ocasionalmente não deve ser motivo para alarme. O que deve chamar a atenção são sinais associados. Por exemplo: dores de cabeça frequentes, dor facial, desgaste dos dentes, dificuldade em mastigar, sono agitado, ressonar, respirar pela boca, cansaço excessivo durante o dia ou alterações do comportamento.
Há pequenos sinais clínicos importantes que podem ser avaliados desde logo nas crianças, uma linha branca ou marcada no meio da bochecha da criança, língua mais marcada com a forma dos dentes ou desgaste dentário exagerado, essencial no entanto perceber que muitas vezes estes sinais não aparecem e o impacto é em comportamento ou dor/tensão.
Os pais devem também estar atentos a mudanças recentes na vida da criança, como maior ansiedade, bullying, pressão escolar ou alterações emocionais importantes.
Mais do que o ranger dos dentes em si, devemos perceber o quadro global e o impacto na qualidade de vida da criança. A avaliação por um médico dentista especialista em crianças ou um médico dentista com diferenciação em disfunção temporomandibular e bruxismo poderá ser importante para reavaliar não só o impacto na criança, mas os fatores causais.
É importante lembrar que nem todo o bruxismo significa doença e nem todas as crianças precisam de tratamentoQual é a diferença entre este comportamento e o bruxismo?
FMR: Ranger os dentes é aquilo que os pais normalmente ouvem ou observam. Bruxismo é o termo clínico utilizado para descrever uma atividade repetitiva dos músculos da mastigação que pode incluir ranger, apertar os dentes ou manter a mandíbula em tensão.
Além disso, o bruxismo pode acontecer durante o sono ou durante a vigília.
Durante a noite, os pais conseguem frequentemente ouvir o ranger dos dentes. Durante o dia pode ser mais difícil identificar: algumas crianças apertam os dentes enquanto estudam, mantêm a mandíbula contraída, mordem objetos, as unhas ou as bochechas.
É importante lembrar que nem todo o bruxismo significa doença e nem todas as crianças precisam de tratamento. Por vezes, o encaminhamento para uma avaliação por um dentista especializado e o controlo dos fatores causais e educação poderá ser suficiente.
Quais são os tratamentos para este problema?
AMA: O tratamento depende sobretudo da causa e do impacto que o problema está a ter na criança. Hoje, a abordagem não passa apenas por tentar impedir a criança de ranger os dentes. O foco deve ser perceber o que está por trás desse comportamento.
Se existirem dificuldades respiratórias durante o sono, sintomas de refluxo, níveis elevados de stress ou ansiedade ou fatores emocionais importantes, essas situações devem ser identificadas e tratadas.
Em muitos casos, o tratamento pode passar por melhorar hábitos de sono, controlar fatores desencadeantes e acompanhar a evolução. O médico dentista poderá conjugar o seu tratamento com o conhecimento dos fatores causais e adaptar o tratamento de dentes e/ou tratamento ortodôntico a esta condição clínica. O tratamento conjugado entre as diferentes áreas é essencial podendo ser importante gerir a situação clínica com fisioterapia, terapia da fala e psicologia além da medicina dentária.
Quando não tratado, quais poderão ser as consequências a longo prazo?
AMA: A boa notícia é que, na maioria das crianças, não existem consequências importantes e muitos casos diminuem naturalmente com o crescimento.
No entanto, quando o bruxismo é mais intenso e persistente, podem surgir consequências como desgaste dentário, aumento da sensibilidade dos dentes, dores musculares na face, dores de cabeça, alterações da qualidade do sono, impacto na qualidade de aprendizagem e qualidade de vida da criança.
Mas existe um aspeto muito importante: por vezes o maior problema não é o bruxismo; é aquilo que ele pode estar a sinalizar, como alterações respiratórias do sono ou dificuldades emocionais que permanecem sem ser identificadas.
Há forma de o prevenir? Como é que os pais deverão agir nestes casos?
AMA: Não existe uma forma garantida de prevenir o bruxismo, porque não existe uma única causa. Aliás nunca falamos em tratamento de bruxismo, o que falamos é controlar e reduzir todos os fatores que possam agravar, potenciar e perpetuar o seu impacto. Um dos pontos que peço aos pais é pedir para filmarem as crianças a dormir para avaliar não só a respiração, mas ruídos, posição e comportamento.
Uma boa higiene do sono é fundamental: horários regulares para dormir, reduzir a exposição a ecrãs antes de deitar, promover atividade física adequada e criar um ambiente tranquilo.
Os pais devem também observar a respiração da criança, perceber se existe ressonar frequente, refluxo, stress ou ansiedade e estar atentos a mudanças comportamentais.
A principal mensagem é simples: não sobrevalorizar, mas também não ignorar. O objetivo não é tratar apenas o barulho dos dentes, é perceber a criança como um todo. A visita a um médico dentista especialista em Odontopediatria e/ou com dedicação a bruxismo e disfunção temporomandibular é importante para assegurar um acompanhamento adequado.


